quinta-feira, dezembro 15, 2005

Howl's Moving Castle (Hauru no ugoku shiro)


O Castelo Andante


Japão, 2004, 119Min.


Página Oficial - Trailer - Fotos

A animação tradicional tornou-se uma espécie em vias de extinção, agora que a Disney se juntou à Dreamworks e Fox abandonando tal estilo de animação. Um ilustre sobrevivente deste venerável género é o japonês Hayao Miyasaki, autor de inúmeras obras mágicas, tais como, “Nausicaä”, “Tenko No Shiro Rapyuta”, “Tonari No Totoro”, “Majo No Takkyûbin”, “Mononoke-Hime” e o genial “Sen To Chihiro No Kamikakushi”. A combinação de ambientes elaborados, reprimenda social, beleza lírica, sequências de voo emocionantes e humanismo enternecedor, salientam o engenho deste superior autor, que evita os estereótipos num género que os desbarata.

Sinopse: Sophie, uma adolescente que trabalha na loja de chapéus de sua mãe, é enfeitiçada por uma malvada bruxa que a transforma numa velhinha. Envergonhada pela sua recente aparência, ruma para as colinas onde deambula um misterioso castelo. Consta-se que tal castelo pertence a um belo e jovem feiticeiro chamado Hauru (Howl é o seu nome “ocidental”), que acarreta uma má reputação.

Crítica:Hauru no ugoku shiro” recolhe elementos de “The Wizard of Oz”, “Beauty and the Beast” e até Howl evoca uma personagem de Shakespeare: Hal, o pródigo príncipe que necessitava de um impulso para alcançar a maturidade. Este filme japonês é um conto de amor, desejo e identidade. Uma parábola para a interacção da mente, coração e determinação. Ao dobrar de cada esquina, ocultam-se imprevisíveis surpresas para regalar o olhar. Tal como em “Monsters, Inc.” cada porta encerra um novo mundo, um novo encontro. É um mundo de feiticeiros, bruxas e demónios que vagueiam entre o Bem e o Mal, com vidas próprias.

O facto do filme ser uma adaptação do romance infantil britânico de Diana Wynne Jones, talvez explique as pequenas lacunas do argumento. É bem verdade que Miyasaki lhe aplica o seu cunho, mas as obras que brotam da sua própria imaginação, têm um arrebatamento bem superior. O mundo criado é belo e gracioso, mas não ganha uma ressonância manifestada em anteriores trabalhos escritos e realizados pelo Mestre. Contudo o autor consegue seduzir o espectador a decifrar os subtis motivos das personagens, consequentemente, apesar do filme ser de difícil compreensão, nunca é monótono para o cinéfilo idóneo.

Como visualmente o filme é bastante vívido, certamente também irá encantar as crianças, apesar destas nem sempre se aperceberem do que realmente se passa. Até os adultos irão remoer a massa cinzenta, tentando descortinar o rumo dos acontecimentos, enquanto muitas questões despoletam interpretações pessoais. Os desígnios e mistérios orientais de Miyasaki conduzirão muitas audiências para uma prematura frustração, pois as suas relíquias artísticas apelam às faculdades cinéfilas do espectador. A frequência na qual as aparências de Sophie variam, desencadeia múltiplas acepções: Será que o Amor lhe quebra o feitiço? Será que Howl consegue vê-la com as feições originais? Será tudo uma metáfora para o amadurecimento?

Miyasaki elabora deslumbrantes fusões do surreal com o quotidiano palpável. A sua obra está assente numa natureza povoada por espíritos, patenteados nas criaturas que se materializam das sombras, no serpentear da relva e das folhas das árvores, assim como no emprego da luz. A exponenciação do panteísmo de Miyasaki.

A técnica de animação do Mestre Miyasaki é tão impressionante como a profundidade e substância dos seus universos quiméricos. A mudança de clima, os complexos padrões de movimento, os lustrosos esquemas de cor e a notável arquitectura, extasiam deleitosamente. O seu singular sentido de espaço, tempo e peso, subsiste de forma majestosa. Quando Sophie e a bruxa sobem aquela interminável escadaria para o Palácio Real, sentimos cada passo minucioso.

As personagens estabelecem uma admirável empatia com a audiência, desde o ajudante Markl ao demónio do fogo Calcifer e passando inclusive pela Bruxa do Nada e um peculiar cãozinho. A paixão de Miyasaki pela mutação da natureza das suas personagens persiste e a inclusão de uma puramente poética é fenomenal: um espantalho mudo e benignamente possuído, cuja postura é uma alegoria ao Cristianismo, marcando sempre presença quando necessário. Nos seus filmes, não existe vilão sem admiráveis qualidades, nem heróis imaculados sem obscuros segredos e qualquer gesto pecaminoso.

Miyasaki abriga sempre uma crítica aos tempos modernos. “Mononoke-hime” era sobre o Meio Ambiente, “Sen To Chihiro No Kamikakushi” reflectia sobre uma sociedade avarenta, materialista e sobre a desconexão entre pais e filhos. “Hauru no ugoku shiro” acolhe uma mensagem anti-guerra numa utópica visão de um mundo calamitoso e funciona como uma arguta e maravilhosa parábola sobre o amadurecimento, sobre como lidar com as respectivas vantagens e desvantagens que nos torna indivíduos. O Mestre da Animação escava fundo nas suas personagens, para descobrir a humanidade e compaixão depositada nos seus corações. Hayao Miyasaki é um cartógrafo da alma, colorindo a paisagem da essência humana com pinceladas de puro encanto.

Classificação: 8/10

Francisco Mendes

Mais Críticas 1

8 Comments:

Anonymous Morakes said...

Eu vi esse filme há mto tempo.. eh bonito, só não gostei da história...

2:57 da manhã  
Blogger cine-asia said...

ainda não o vi mas pela crítica do Francisco e de outras que tenho lido parece-me ser bastante bom, Cumprimentos,

Sérgio Lopes.

11:32 da tarde  
Blogger H. said...

tenho.o aqui para ver... num dos próximos dias...

12:26 da manhã  
Blogger Fernando_Vilarinho said...

O Francisco escreve com um fino recorte literário, se calhar inspirado pela imensa beleza deste filme, que só vi em sala de cinema.
em breve vou adquiri-lo.

Sérgio o melhor NATAL possível para ti e para os teus próximos.

muita saúde e felicidade.

abr.

fernando

7:02 da tarde  
Blogger cine-asia said...

Fernando: Realmente a crítica do Francisco é fabulosa. Tive que a postar aqui... Um excelente Natal tb para ti e para os teus.

1 abraço

Sérgio lopes

6:15 da tarde  
Anonymous Nuno Gonçalves said...

Em primeiro lugar os meus parabéns por este blog que se debruça sobre o grande cinema vindo do oriente que na maior parte das vezes nem chega a estrear. Felizmente não foi o caso de um dos filmes do ano, Oldboy.

Mas falando em Miyazaki... considero-o sem dúvida o maior génio da animação de sempre. A sua senbilidade e capacidade de contar histórias são tremendas. E Howl's Moving Castle é um dos mais encantadores e envolventes filmes que estrearam em 2005.

5:49 da tarde  
Anonymous Miguel Louro said...

Este filme de Hayao Miyazaki,

apesar d ter lidu critikas

terriveis, centra-se numa temátika

nunka antes desenvolvida por este

garnde homem e mestre: o amor...

lindu, lindu, lindu... bom

aproveitu para t indikar 1 outro

filme d animação japonês- k

kuiosament x diz em

japones "manga" e n "anime"- k

komoveu-m d 1forma fabulosa. É o

MILLENNIUM ACTRESS (2001), do

eximio SATOSHI KON, recentemente

distribuidu pela LUSOMUNDO

AUDIOVISUAIS.

FORXA E 1 ABRAXU

11:43 da tarde  
Blogger Fia said...

Eu não poderia ter gostado mais deste filme...é simplesmente magestoso na sua construção, fotografia, técnica e desenvolvimento do enredo....é magnífico...
E amei as vozes escolhidas para a dobragem em português. Para mim é nota 20 absolutamente.

3:48 da tarde  

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