quinta-feira, maio 24, 2007

Boy (Shonen)

Japão, 1969, 105Min.

Página Oficial - Trailer - Fotos

Sinopse: Inspirado em fatos reais, o filme retrata a vida de um miúdo de 10 anos e sua família que viaja pelo Japão praticando atariya, um tipo de golpe onde uma pessoa simula ter sido atropelada para então extorquir dinheiro dos motoristas...

Crítica: Assistir a um filme do realizador Nagisa Oshima é viajar por um país sem maquilhagem e despido de todas as máscaras de certa forma criadas por conterreâneos como Ko Ichikawa ou Yasujiro Ozu. Aquele Japão perfeito, socialmente homogêneo, lutando e reerguendo-se dignamente no pós-guerra dá um lugar a um país hipócrita, socialmente injusto e que se expõe diante de um orgulho irracional. Assim, Oshima não tem medo em explorar temas que giram em torno da juventude perdida, da politica, da marginalidade e pervenções sexuais dentro desse universo da maneira mais controversa possível.

Em Boy, essa munição é logo disparada no início onde vemos os créditos escritos em vermelho sob o sol da bandeira do Japão pintada de negro, representando um país em luto com os valores absolutamente perdidos. Vale a pena lembrar que esse desenho do sol negro também foi uma forma que os coreanos — povo defendido por Oshima arduamente — usavam para atacar os japoneses.

É interessante notar que uma primeira leitura da sinopse acima, poderia sugerir a acção de yakuzas ou delinquentes juvenis, mas o espantoso é descobrir que os deliquentes em questão são uma família comum de classe baixa que vive de golpes para sobreviver. Assim, o filme retoma o tema da deliquência em família apresentada em Ai to Kibo no Machi (1959), onde o filho, estimulado pela mãe, vende pombos que sempre acabam retornando novamente a eles, para então serem novamente vendidos, num verdadeiro ciclo simbólico de imobilidade social, exactamente a mesma visão apresentada em Boy, onde o símbolo inatingível, desta vez, é o automóvel, objecto de trabalho deles.

Claro que Oshima, ao utilizar uma criança como principal foco de resistência de suas idéias, gera um choque muito maior, ainda mais quando nos lembramos da máxima do clichê do discurso social da criança ser o futuro da humanidade. No filme, a criança é simplesmente chamada de boya (miúdo) e assemelha-se como outro qualquer, usando um uniforme escolar (embora não frequente a escola) e um boné (símbolo de personalidade dos miúdos japoneses).

Quem se faz de vítima nos primeiros atropelamentos é a mãe, mas no decorrer do filme, o miúdo assume o seu lugar quando percebe o desgaste dela e descobre que os ganhos poderiam aumentar com ele como vítima. De certa forma, o filme possui um tom autobiográfico, uma vez que Oshima perdeu o pai aos 6 anos de idade e, assim, teve que assumir as responsabilidade da família, mesmo que nominalmente.

Aos poucos, ele e a mãe ganham independência e percebem que o papel do pai é meramente burocrático, de persuação física e até mesmo de fraqueza, quando ele pretende diminuir os golpes para não chamar tanta atenção. Mas os dois continuam sem ele. Novamente vemos Oshima a dar à mulher um papel dominante, mostrando-as como ser superior, enquanto os homens são mostrados como tolos, mascarados somente com uma capa patética de autoridade física. Enfim, Boy é um filme riquíssimo em detalhes simbólicos. É, portanto, mais um grande exemplo do cinema provocativo de Oshima e da sua visão corajosa, reflexiva e provocativa da sociedade japonesa. Absolutamente obrigatório.

Ric Bakemon

1 Comments:

Blogger cine-asia said...

Parece mais um clássico de Oshima...

6:13 da tarde  

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