terça-feira, julho 04, 2006

Happy Together - Parte 2

Hong-Kong, 1997, 96Min.

Página Oficial -
Trailer - Fotos

Primeira parte disponível AQUI

A experimentação fílmica, como já explicamos, tem a ver com os termos plásticos, já que o realizador faz inovações com cores filtradas na película. Alguns críticos ressaltam o aspecto de “film de chambre”, devido à quantidade de cenas no quarto de Yiu-Fai o que confere ao filme um caráter intimista. Muitas das cenas acontecem dentro do quarto, no bairro La Boca, que era onde vivia Yiu-Fai. As cenas gravadas em Buenos Aires e não utilizadas no filme foram aproveitadas em um filme chamado “Buenos Aires Zero Degrees”, que é o “making off” de “Happy Toghether”.

O filme coloca uma resposta a uma pergunta concreta: é possível dois opostos viverem felizes juntos? Existe uma dimensão sexual (a relação dos dois) e política (o ano conturbado de transferência de poderes, a morte do líder chinês) no filme, mas ambas apontam para uma direcção, tanto a nível macro quanto micro: é possível conviver com a alteridade? Em que implica a aceitação do outro? Ela pode ser sem limitações? Aceitar o outro como ele é não é aceitar-se a si mesmo?

Nas tomadas externas, as imagens do obelisco da Avenida 9 de julho, no centro de Buenos Aires, as cenas/visões/movimentos acelerados da câmera mesclam-se com as relações pessoais e a solidão, componente essencial dos filmes de Kar-Wai. O anonimato, o trânsito intenso, a profusão de informações, as pessoas nas ruas, a contemporaneidade representada pelo relógio, que dissolve as horas na fugacidade da vida cotidiana. Os minutos que marcham rapidamente, o esvair-se do tempo, o excesso de informação, a perda, a melancolia, a nostalgia, o tempo perdido. São todos elementos que se amalgam a partir de uma perspectiva poética e original.

Tecnicamente, experimenta-se o recurso fotográfico onde o brilho é amplificado pelo uso da película em alto contraste, o processo de filtração das imagens em 16 mm, as seqüências coloridas que se alternam com o preto e branco, os subtítulos detidos nas imagens. O objectivo dos dois amantes era claramente o encontro e a viagem às Cataratas. Como uma negação de suas possibilidades, surge a utilização, por parte do cineasta, de um objecto insistentemente mostrado pela câmara (onze vezes), o abajour. Se o considerarmos um típico objeto kitsch, tiramos daí algumas significações.

Os elementos culturais argentinos, como o tango e a melancolia são dois aspectos essenciais para se entender o processo de tomar emprestado da literatura um tema de criação e realizar uma relação intersemiótica de transposição dos signos do cinema e da literatura. Sem ater-se com tanta ênfase ao aspecto da sexualidade, o filme não aborda a homossexualidade de maneira explícita nem tão pouco panfletária. A história é entre dois seres humanos que, felizes-juntos, infelizes-separados, infelizes-juntos e felizes-separados, não conseguem retornar ao lugar de origem.

Yiu-Fai afirma que, para seu amante, recomeçar de novo trazia um significado muito variado. Mas sabe-se que é impossível começar de novo, todo o presente nos é arrebatado com as marcas que se carrega do passado. Ou seja, toda tentativa de renascimento traz um passado de variações, experiências múltiplas que a memória carrega. Pode-se ver, então, o filme a partir de dois prismas distintos: o âmbito político – o ano é 1997 – ou o âmbito pessoal – um casal, que, independente de sua orientação sexual, briga incessantemente, mas não consegue se separar no pensamento, na imaginação nem no desejo.

Wong Kar-Wai surpreende o espectador ao levar às telas a questão identitária de Hong Kong em 1997. Numa via de mão dupla – cinema/literatura ou literatura/cinema – Kar-Wai toma emprestado de Manuel Puig o cenário argentino, o tango e a focalização das ações no homem gay tentando sair de uma relação destrutiva. Do mais singelo e quotidiano irrompe a grande metáfora do viver separado e junto. A cifra das relações pessoais traça um itinerário até os grandes pontos divergentes e convergentes entre China, Taiwan e Hong Kong. O planeado para dois meses estendeu-se a cinco, e os chineses estendem suas perambulações pela capital argentina.

O discurso do outro solidifica-se, então, através das imagens contemporâneas, instantâneas, rápidas, urbanas, noturnas, melancólicas e instigantes que o filme produz. A focalização no outro e a sua relação com o mundo, a impossibilidade de comunicação fora de seu país de origem, a condição de ser em exílio. Características que compõem as identidades como “alter”, seja pelas ações sexuais, afetivas, ou pela condição extremamente física a que o ambiente os condiciona.

Não se pode considerar o filme essencialmente triste ou deprimente, especialmente se pensamos em sua imagem final, que se compõe pela esperança e a possibilidade do renascer de novos tempos. Tudo isso usando a simbologia da estação, o momento em que Yiu-Fai chega a Hong Kong. A estação como um local de chegada e partida, de sujeitos que se transformam em seus próprios itinerários, enfim, a última cena traz a esperança de maneira brilhante e positiva. Bosqueja no rosto de Yiu-Fai a possibilidade de novas vivências e percepções, que, apesar de suas mazelas traumáticas e de sua impossibilidade de sucesso em sua relação anterior o permite construir algo novo através da experiência.

O sorriso de renascimento e redenção no último plano do trem na estação se imobiliza na pausa da imagem e traz também a possibilidade de novas chegadas/ partidas, novas uniões. A metáfora da união entre Hong Kong e Inglaterra que, justamente no ano de reversão do território à soberania chinesa, nos permite novas leituras/reflexões políticas pela história pessoal desses personagens.

Classificação: 10/10


Veridiana Gama

4 Comments:

Blogger Lua Obscura said...

desafio cinematográfico...

12:10 da manhã  
Blogger amoranada said...

Oi
gostei muito do texto publicado, obrigada , leia também minha dissertação sobre Felizes Juntos e Manuel Puig que eu publiquei no Blog espiritolibre.blogspot.com
abraços
veridiana

2:20 da tarde  
Anonymous tf10 said...

Um belo filme do grande kar wai, com algumas das suas caracteristicas inconfundiveis (camara "às costas", slows, cortes, etc), com mestre Doyle a fazer maravilhas como sempre e com Leslie e o Tony com excelentes desempenhos, o que não é novidade. Ainda assim, não atinge o nivel das suas obras de arte, In the mood, e os meus favoritos Chungking e o Fallen. Mas é certamente um filme recomendado, como todos os seus filmes, sem excepção!

4:05 da tarde  
Blogger cine-asia said...

Ainda não o vi. Est+a definitivamente na minha lista dos "must see" em breve. Abraços

Sérgio lopes

6:10 da tarde  

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